Sociedade

Um papa não europeu, 1300 anos depois?

O anúncio da renúncia de Bento XVI, no próximo dia 28 de fevereiro, relança um debate que já tinha ocorrido por altura da sucessão de João Paulo II, em 2005: o da possibilidade de ser um nome não-europeu a sair do conclave de cardeais, que deverá decorrer no próximo mês de março. Não seria inédito, mas há uma barreira histórica, com cerca de 1300 anos, para derrubar.

550A universalidade da Igreja, e o facto de algumas das maiores comunidades católicas estarem nesta altura localizadas em outros continentes dá corpo a essa hipótese. A América Latina, por exemplo, alberga 42 por cento da população católica mundial, estimada em 1200 milhões de fiéis. África, e os seus mais de 160 milhões de católicos, assume também uma fatia relevante, próxima dos 15 por cento. A isto, acresce a ação social e politicamente relevante, ao longo das últimas décadas, de representantes da Igreja em países de África, Ásia ou da América Latina, de que nomes como os prémios Nobel da Paz, Desmond Tutu (1984) e D. Ximenes Belo (1996) são exemplos flagrantes.

O cardeal suíço Kurt Koch, presidente do Concílio Pontifical para a Unidade Cristã, reconhece essa nova realidade, e defende que a questão está na ordem do dia: «Seria bom que houvesse candidatos africanos ou latino-americanos no próximo conclave», afirmou, em declarações reproduzidas pela agência Reuters. Por sua vez, o arcebispo alemão Gerhard Müller, que sucedeu a Joseph Ratzinger como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, deu também um sinal de abertura ao declarar a sua convicção de que «vários cardeais da América Latina seriam capazes de assumir a responsabilidade de conduzir toda a Igreja».

A tradição dos papas sírios

Um olhar sobre a história vem, porém, arrefecer as expetativas para o conclave de março, já que dos 265 papas que a História regista, apenas dez vieram de fora das atuais fronteiras da Europa. O último caso registado aconteceu em 741 d.C., há quase 1300 anos, com a morte de Gregório III, o último dos papas provenientes da Síria.

Antes, a história regista o nome de três papas africanos entre os séculos II e V d.C. (Vítor I, Melquíades e Gelásio I), numa altura em que o atual Norte de África era pertença do Império Romano. Papas de origem síria, foram seis ao todo, e há ainda registo de um para, Teodoro I, originário de Israel, em pleno século VII.

A partir daí, a «norma» europeia tem sido regra. Antes ou depois da atual definição de estados e fronteiras. Itália (claramente em maioria, com 217 eleitos) Alemanha, França, Grécia, Croácia, Polónia, Inglaterra e Países Baixos, além de Portugal (João XXI, no século XIII), têm sido, nos últimos 13 séculos, as regiões de proveniência dos papas de Roma.

48 países representados no conclave

O conclave que antes da Páscoa, deverá anunciar o nome do sucessor de Bento XVI reflete a diversidade geográfica que dá forma ao universo católico no século XXI. Segundo a agência notíciosa Ecclesia, o Colégio Cardinalício reúne 209 cardeais, de 66 países, dos quais 118, provenientes de 48 países, com direito a voto.

Destes nomes, mais de metade vem da Europa (62 cardeais), seguindo-se, por regiões, a América Latina (19), América do Norte (14), África (11), Ásia (11) e Oceania (1). A Itália é o país mais representado no Colégio, com 28 cardeais eleitores. Seguem-se EUA (11), Alemanha (6), Brasil, Espanha e Índia (5 cada) Portugal está representado por dois cardeais eleitores, D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, e D. Manuel Monteiro de Castro.

Fonte: TVI24

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