Ciência Genética Sustentabilidade

Falta de escrúpulos e pouca transparência marca estudos sobre riscos dos transgênicos

md-ciencia-transgenicos-riscos-azAmeaças à saúde humana, meio ambiente e diversidade alimentar ainda são objectos de divergência entre cientistas, empresas, governos nacionais e organizações multilaterais.

Foco de toda a polémica que contrapõe defensores e adversários dos transgénicos desde o início de sua comercialização mundial há 17 anos, os potenciais riscos trazidos pelos alimentos geneticamente modificados à saúde humana, ao meio ambiente e à diversidade alimentar permanecem insatisfatoriamente esclarecidos e ainda são objecto de divergência entre cientistas, empresas do sector de biotecnologia, governos nacionais e organizações multilaterais.

Quando se fala em transgénicos, em que pese a maciça propaganda favorável patrocinada pelas empresas detentoras da tecnologia, ainda são muitas as vozes que evocam o Princípio da Precaução (um dos pilares do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança, firmado no âmbito da ONU) e alertam sobre o perigo de ameaças como o aumento da incidência de doenças, as contaminações de cultivo convencional e de áreas de protecção ambiental, a expansão do uso de agrotóxicos e o controle monopolizado de sementes e técnicas de produção.

Tendo por base a análise da situação do Brasil, já que é actualmente o segundo maior produtor e consumidor de transgénicos e agrotóxicos, podemos extrapolar para o mundo…

No que diz respeito à saúde humana, entidades multilaterais de peso como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) afirmam não haver comprovação de que os produtos transgénicos comercializados até hoje façam mal. Entretanto, organizações representativas da sociedade civil que actuam contra a disseminação dos cultivos geneticamente modificados criticam o pouco rigor dos testes de biossegurança – muitos, patrocinados pelas próprias empresas que actuam no sector de transgenia – realizados na maioria dos países e apoiam-se em estudos independentes publicados recentemente para afirmar que uma alimentação à base de transgénicos pode favorecer o aparecimento de tumores e outras anomalias.

Prazos de pesquisa curtos

A pouca transparência e os métodos utilizados nos testes de biossegurança são criticados pelo movimento socioambientalista: “A questão dos riscos está a ficar mais evidente, pois alguns cientistas independentes resolveram enfrentar as leis que protegem as empresas de transgenia de qualquer exame de seus produtos sem sua autorização. Esses pesquisadores adoptaram procedimentos cientificamente rigorosos para avaliar os riscos para a saúde, mas, sobretudo, passaram a avaliar os possíveis impactos por prazos mais longos do que aqueles usados nos testes de segurança das empresas. Nestes últimos, os prazos nunca foram superiores a três meses e, frequentemente, são ainda mais curtos. Curiosamente, todos os problemas (tumores, deformações de órgãos etc.) começam a aparecer a partir do quarto mês de testes”, diz Jean Marc von der Weid, dirigente da Assessoria e Serviços a Projectos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), organização fundadora da Campanha por um Brasil Livre de Transgénicos e Agrotóxicos.

Professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em biossegurança, Paulo Brack aponta a contaminação das lavouras convencionais como outro factor de risco trazido pelos transgénicos: “Mesmo que o agricultor não queira, a proximidade com cultivos transgénicos traz poluição genética e a contaminação de culturas convencionais. É quase inviável plantar hoje sementes que não sejam transgénicas, pois a contaminação já está a acontecer”, diz. Brack sublinhando que a contaminação “faz parte do processo” de domínio levado a cabo pelas empresas de transgenia: “A contaminação é também uma maneira de as empresas se tornarem hegemónicas e praticamente totalitárias nesse mercado.”

Ratos com Cancro

Como contraponto aos estudos pagos pelas empresas, Jean Marc cita os testes sobre o milho transgénico da Monsanto realizados com ratos durante dois anos pelo cientista francês Gilles Seralini: “O estudo produz resultados arrasadores, inclusive com algumas fotos assustadoras. Apesar do bombardeio de cientistas pró-transgenia, muitos deles empregados directos ou indirectos das empresas, Seralini respondeu a todas as objecções e pediu aos críticos que usassem o mesmo rigor para os testes mais do que superficiais que são feitos pelas próprias empresas”, diz o ambientalista.

md-ciencia-transgenicos-riscos-b

A equipe coordenada pelo professor Seralini, que trabalha na Universidade de Caen, em França, publicou em Setembro do ano passado um estudo sobre o milho transgénico NK603, desenvolvido pela Monsanto para ser resistente ao herbicida RoundUp (à base de glifosato), também fabricado pela empresa transnacional, ambos presentes em 80% dos transgénicos alimentícios plantados em todo o mundo. Realizado com 200 ratos de laboratório, o estudo revelou que o consumo contínuo tanto do milho transgénico quanto de glifosato levou-os a uma mortalidade mais alta e frequente que as registadas habitualmente na espécie.

Entre os distúrbios mais graves apresentados pelos roedores está o desenvolvimento de grandes tumores mamários na maioria das fêmeas, enquanto outras morreram em decorrência de problemas renais. Os machos, por sua vez, tiveram na sua maioria deficiências graves nos sistemas hepático e renal. Para a realização do teste, os ratos foram alimentados de três maneiras: apenas com milho transgénico, com milho transgénico tratado com RoundUp e com milho convencional tratado com RoundUp. As doses de milho transgénico (a partir de 11%) e de glifosato (0,1 ppb na água) dada aos ratos foram as mesmas consumidas pelos cidadãos dos Estados Unidos submetidos à dieta da Monsanto.

OMS

Apesar da publicação de estudos que comprovariam os malefícios dos alimentos transgénicos, o Departamento de Segurança Sanitária dos Alimentos da OMS garante que jamais foi identificado qualquer caso de efeito nocivo sobre a saúde humana resultante do seu consumo. Segundo um estudo publicado em parceria com a FAO em 2005, e acatado até hoje, “os efeitos potenciais directos dos alimentos geneticamente modificados sobre a saúde são em geral comparáveis aos riscos conhecidos associados aos alimentos tradicionais” no que diz respeito ao seu potencial alergénico e a toxidade de seus constituintes, como também à qualidade nutricional do alimento e sua segurança sanitária.

oms-logoO mesmo estudo, no entanto, fala também em efeitos indirectos: “Grupos de especialistas da FAO e da OMS examinaram o risco de que os genes sejam transferidos de um alimento geneticamente modificado a células mamárias ou bactérias da flora intestinal. Esses especialistas julgaram prudente considerar que fragmentos de DNA subsistem nas vias digestivas humanas e são susceptíveis de serem absorvidos pela flora intestinal ou pelas células somáticas que forram a parede do intestino”. O estudo conclui que “a inserção aleatória de genes num OGM [organismo geneticamente modificado] poderia determinar instabilidades genéticas e fenotípicas, mas não há actualmente nenhuma prova científica indiscutível de tais efeitos.”

Paulo Brack lamenta que não haja instituições multilaterais, ou mesmo nacionais, capazes de centralizar os testes sobre os riscos trazidos pelo consumo de organismos geneticamente modificados: “A questão dos transgénicos é relativamente recente, e nós não temos instituições que façam estudos em relação aos seus efeitos porque hoje quem trabalha com isso são as próprias empresas do sector de transgenia. Estas não querem realizar trabalhos relativos aos transgénicos e aos seus produtos associados.” O professor da UFRGS diz acreditar que essa questão será mais transparente no futuro: “A ciência vai avançando. Há 30 ou 40 anos, quando se falava que o cigarro e a nicotina faziam mal à saúde, isso era motivo de chacota por parte das empresas e até mesmo de alguns sectores das ciências. Hoje, no entanto, não se tem mais dúvidas quanto aos malefícios do cigarro.”

Duplo risco

Segundo a organização ambientalista Greenpeace, os transgénicos representam um duplo risco: “Primeiro, por serem resistentes a agrotóxicos ou possuírem propriedades insecticidas, o uso contínuo de sementes transgénicas leva à maior resistência de ervas daninhas e insectos, o que por sua vez leva o agricultor a aumentar a dose de agrotóxicos ano a ano. Não é por acaso, o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos, sendo mais da metade deles destinados à soja, primeira lavoura transgénica a ser inserida no país. Além disso, o uso de transgénicos representa um alto risco de perda de biodiversidade, tanto pelo aumento no uso de agroquímicos (que têm efeitos sobre a vida no solo e ao redor das lavouras), quanto pela contaminação de sementes naturais por transgénicas”, diz um documento da organização.

A Greenpeace também critica os testes de biossegurança realizados nos últimos anos: “Não existe consenso na comunidade científica sobre a segurança dos transgénicos para a saúde humana e o meio ambiente. Testes de médio e longo prazo em cobaias e em seres humanos não são feitos, e geralmente são repudiados pelas empresas de transgénicos.” A organização internacional considera a libertação de transgénicos “uma afronta ao Princípio da Precaução e uma aposta de quem não tem compromisso com o futuro da agricultura, do meio ambiente e do planeta”.

Além dos riscos à saúde e ao meio ambiente, há também os riscos sociais. As 30 organizações de 12 países que compõem a Rede por uma América Latina Livre de Transgénicos (RALLT) enviaram a toda a equipe dirigente da ONU uma carta aberta na qual alertam sobre os impactos trazidos pela transgenia: “Longe de cumprir as promessas que as empresas fizeram para entrar na região, os transgénicos têm semeado desolação e morte na América Latina, onde esses cultivos alcançaram altos limites de expansão, ocupando o segundo lugar em área cultivada com transgénicos no mundo.”

“Genocídio” à Escala Mundial

endgenocidenow(1)

Segundo a RALLT, a disseminação acelerada dos transgénicos “tem significado a contaminação genética da agrobiodiversidade, a destruição de ecossistemas naturais e a submissão da população a uma condição sanitária que, devido ao uso de pesticidas, se aproxima do genocídio”. Apenas nos países do Cone Sul, diz a carta aberta, a soja resistente ao glifosato cobre uma área de 475,7 mil km²: “Toda essa área é fumigada com um cocktail de agrotóxicos, afectando milhões de pessoas que vivem na zona de influência das fumigações de veneno associadas a cultivos transgénicos.” O documento diz ainda que “os impactos produzidos pelo modelo de sementes transgénicas alcançaram níveis tão grandes que este deixou de ser um problema que pode ser resolvido por meio de técnicas como a avaliação e manejo dos riscos para se converter em uma violação dos direitos humanos de populações inteiras”.

A carta alerta também para o perigo que o controle das sementes de milho pelas empresas do sector de biotecnologia representa para a diversidade alimentar e a soberania cultural dos países latino-americanos – sobretudo o México e os países da América Central – e pede que essa discussão deixe o âmbito restrito do Protocolo de Cartagena e da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da ONU e passe a ser tratada também por outros sectores do sistema das Nações Unidas, como, por exemplo, o Alto Comissariado para Direitos Humanos.

“As empresas que produzem sementes e agrotóxicos e comercializam alimentos transgénicos, juntamente com as elites locais e a cumplicidade dos governos de plantão, converteram a América Latina em plataforma dos cultivos transgénicos do mundo, criando um problema de violação sistemática e legalizada dos direitos humanos”, diz o documento, que foi enviado simultaneamente para Navanethem Pillay (alta comissária para Direitos Humanos), Olivier de Schutter (relator especial sobre Direito à Alimentação) e os brasileiros José Graziano (director da FAO) e Bráulio Dias (secretário-executivo da CDB), entre outras autoridades da ONU.

Fontes:

Obrigado por nos dizer como este artigo o fez sentir! Agora conte a todos partilhando - .
Como este artigo o faz sentir?
  • Fora de Mim
  • Fascinado
  • Apoiado
  • Indiferente
  • Assustado
  • Chateado
Partilhas