Insólito Sustentabilidade

A Fábrica do Pai Natal

Christmas decorations being made at a factory in Yiwu city, Zhejiang province, China - 15 Dec 2014

Há vermelho no tecto e vermelho no piso, vermelho a pingar dos parapeitos das janelas e dos glóbulos salpicados nas paredes. É como se tivessem deixado o artista Anish Kapoor à solta, com o canhão de cera, outra vez. Mas é esta, na verdade, a aparência de uma fábrica de Natal. Este é o coração da oficina de Pai Natal – a milhares de quilómetros de distancia do Polo Norte, na cidade chinesa de Yiwu.

Christmas decorations being made at a factory in Yiwu city, Zhejiang province, China - 15 Dec 2014

Os mitos natalícios parecem sugerir que o Natal é feito por “elfos” de face rosada, a martelar numa cabana de madeira rodeada de neve, nalgum lugar do Círculo Polar Árctico. Mas não, é provável que a maior parte dos pendentes, lantejoulas e luzes cintilantes de LED que espalha generosamente na sua casa, venham de Yiwu, uma cidade 300 quilómetros a sul de Shangai – onde não há um único pinheiro de verdade ou floco de neve natural.

Baptizada de “cidade chinesa do Natal”, Yiwu alberga 600 fábricas que, em conjunto, produzem mais de 60% de toda a decoração e acessórios de Natal – das árvores incandescentes de fibra óptica aos chapéus de feltro do Pai Natal. Os “elfos” que trabalham nestas fábricas são, quase sempre, operários migrantes, que trabalham 12 horas por dia, por um salário que equivale a algo entre os 270 e os 350 euros por mês. E eles talvez não saibam muito bem o que é o Natal.

“Talvez seja como o Ano Novo [Chinês] para estrangeiros, diz, à agência chinesa de notícias Sina, Wei, um trabalhador de 19 anos que chegou a Yiwu este ano, vindo da região rural da província de Guizhou. Juntamente com o pai, ele cumpre longas jornadas numa cave salpicada de vermelho. Apanha flocos de neve de polietileno, mergulha-os num banho de cola, coloca-os numa máquina de revestir com pó, até que se tinjam de vermelho – e faz 5 mil peças a cada dia.

No processo, ambos terminam encardidos da cabeça ao tornozelo, com pó fino de carmesim. O pai veste um chapéu de Pai Natal (não para celebrar, diz ele, mas para evitar que o cabelo se torne vermelho) e ambos gastam pelo menos dez máscaras faciais por dia, para evitar respirar o pó. É um trabalho cansativo e eles provavelmente não o farão de novo no próximo ano: assim que ganharem o suficiente para que Wei se case, querem voltar para Guizhou e, se tiverem sorte, nunca mais ver uma cuba de pó vermelho.

Christmas decorations being made at a factory in Yiwu city, Zhejiang province, China - 15 Dec 2014

Embalados em sacos plásticos, os flocos de neve vermelho-reluzentes estão expostos no Mercado Internacional de Yiwu, também conhecido como Cidade das Mercadorias da China – um mundo maravilhoso de 4 milhões de metros quadrados de quinquilharias de plástico. É um paraíso, um show de vendas infinito de tudo o que há no mundo e não se precisa mas pode, num momento irracional, sentir-se compelido a comprar. Há ruas inteiras, neste complexo de labirintos, dedicadas a flores artificiais e brinquedos insufláveis. De seguida, vêm as sombras e anoraques, baldes de plástico e relógios. É um monumento palpitante ao consumo global, em muitos andares, como se o conteúdo de todos os aterros do mundo tivesse sido escavado, recomposto e meticulosamente catalogado com 62 mil stands.

O complexo foi considerado pela ONU o “maior mercado de pequenas peças do mundo” e a sua magnitude exige uma espécie de plano urbano, que organiza este festival de comércio em cinco distritos diferentes. É no Distrito Dois que se encontra o Natal.

Há corredores inteiros repletos apenas de falso esplendor, ruas a vibrar com shows de luzes LED que competem uns com os outros, meias de todos os tamanhos, árvores de Natal de plástico azul, amarelo e rosa cintilante, cones plásticos de pinheiro dourados e prateados.E é claro as inexplicáveis invenções chinesas como o Pai Natal a tocar saxofone.

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Poderia ser a glória, mas os dias de apogeu do mercado parecem ter ficado para trás. Está a perder terreno para os  gigantes da Internet, como o Alibaba e o Made In China. Só no Alibaba, é possível escolher entre 1,4 milhão de itens de Natal diferentes, e recebê-los em casa após alguns cliques. O mercado de Yiwu não é comparável a isso: ele dispõe apenas de 400 mil produtos.

Direccionadas para a classe baixa de mercado, as vendas de Yiwu prosperaram durante a recessão, quando o mundo desejava objectos de consumo baratos. Mas as vendas internacionais estão baixas este ano. Ainda assim, segundo Cai Qingliang, vice-presidente da Associação dos Fabricantes de Produtos Natalicios de Yiwu, o apetite doméstico anda firme, já que a China abraçou a festa anual do consumo. Mais chineses sabem a respeito do Pai Natal do que de Jesus, diz a revista Economist.

As vendas fulgurantes do mercado de Yiwu soam sempre bem, sugerindo um Natal eterno. Para Cheng Yaping, co-fundador da Fábrica de Objectos Boyang, que mantém uma loja adornada como um pequeno paraíso na neve, “sentar-me aqui todos os dias e poder cercar-me de toda esta bela decoração, é excelente para o ânimo”.

É improvável que sintam o mesmo aqueles a quem restou ocupar a outra ponta da linha de produção, resignados a mergulhar flocos de neve em oficinas infestadas de vermelho, para que possamos encontrá-las nas prateleiras a 50 cêntimos.

 

Fonte: outraspalavras

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