Saúde

Molécula artificial bloqueou todas as estirpes conhecidas do vírus da sida

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A confirmarem-se os resultados e a verificar-se a sua inocuidade, o novo composto, criado em laboratório e já testado num pequeno grupo de macacos, poderia constituir a base de uma futura vacina contra o VIH humano.

Quatro macacos Rhesus vacinados com um novo composto desenvolvido nos EUA resistiram à infecção pelo vírus da sida dos símios apesar de terem sido injectados repetidas vezes com altas doses do vírus. O resultado, que ainda precisa de ser confirmado e analisado em pormenor, foi publicado online na quarta-feira pela revista Nature. E já é considerado por alguns como uma via de investigação muito promissora para uma futura vacina preventiva contra a sida.

Há 30 anos que os especialistas procuram formas de imunizar os seres humanos contra o VIH. Porém, até aqui, as tentativas de fabricar vacinas preventivas, capazes de proteger as pessoas saudáveis contra a infecção pelo vírus da sida, têm-se saldado por fracassos.

As vacinas funcionam porque estimulam a produção, pelo organismo das pessoas vacinadas, de anticorpos dirigidos contra o agente infeccioso que pretendem neutralizar . E como o VIH invade os linfócitos T humanos – as células imunitárias que constituem o seu alvo preferencial –, ligando-se a uma molécula de superfície destas células chamada receptor CD4, os anticorpos a partir dos quais se tem tentado fabricar vacinas contra o VIH possuem uma região idêntica a um fragmento desse receptor CD4.

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A ideia é que, ao cruzar-se com esses anticorpos a circular no sangue, o vírus irá “enganar-se” no alvo, ligando-se a essas moléculas e não aos próprios linfócitos T. Em princípio, isso deveria impedir a sua entrada nas células. Mas a estratégia não tem funcionado, em particular devido à grande variabilidade molecular do vírus.

Agora, Michael Farzan, do Instituto Scripps de Investigação na Florida – à frente de uma equipa composta por várias dezenas de cientistas vindos de uma série de entidades científicas norte-americanas –, decidiu enveredar por um caminho diferente. Por um lado, produzindo artificialmente um anticorpo mais bem “equipado” para dificultar ao máximo a entrada do VIH nos linfócitos T. E por outro, recorrendo à abordagem de “terapia genética”, em que os genes que comandam o fabrico desse anticorpo artificial são inseridos no genoma do organismo a imunizar a bordo de um vírus inócuo.

 

“O nosso composto é o inibidor da entrada do VIH mais potente e com o maior espectro de acção jamais descrito”, diz Farzan em comunicado da sua instituição. “Ao contrário dos anticorpos [convencionais], que se revelam incapazes de neutralizar grande parte das estirpes de VIH, a nossa proteína mostrou-se eficaz contra todas as estirpes testadas, o que coloca a hipótese de vir a ser utilizada como vacina contra o vírus da sida.”

 

Os cientistas exploraram o facto de a entrada do vírus nas células imunitárias humanas não ser apenas mediada pelos receptores CD4, mas pela sua ligação, em simultâneo, ao CD4 e a um outro receptor dos linfócitos T, chamado CCR5. Só a partir daí é que o VIH consegue mesmo entrar nas células, inserir o seu material genético e transformar essas células infectadas em fábricas de partículas virais de VIH. Recorde-se aliás que é esse mesmo receptor CCR5 que, quando mutado, torna os seus portadores naturalmente imunes ao vírus.

Partindo desse duplo requisito, Farzan e colegas construíram um anticorpo que não existe na natureza – e que possui não só uma região parecida com um fragmento de CD4, mas também uma outra região, parecida com um bocado de CCR5. E mais: posicionaram essas duas regiões moleculares no novo composto de maneira a este conseguir “segurar” o vírus o mais fortemente possível.

O novo “truque” parece ter funcionado. O novo composto, baptizado eCD4-Ig, inibe de forma muito mais potente a entrada do VIH nos linfócitos do que mesmo os anticorpos convencionais mais eficazes.

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Em particular, quando os cientistas o testaram in vitro, constataram que ele funcionava mesmo contra estirpes do VIH particularmente resistentes. “Desenvolvemos uma forma de imitar os [dois] receptores de forma a retirar espaço de fuga ao vírus e portanto apanhámo-los todos”, explica o co-autor Matthew Gardner.

A seguir, testaram o composto in vivo num pequeno grupo de macacos Rhesus. Para isso, inseriram dentro de um vírus inócuo (que serve apenas de veículo para entrar nas células) o gene que comanda o fabrico do eCD4-Ig dos macacos. Inocularam essa “vacina” experimental por via intramuscular a quatro animais e a seguir administraram-lhes, por via sanguínea, repetidas e elevadas doses de um vírus que é uma mistura do vírus SIH dos símios e do VIH humano. Resultado: ao longo de pelo menos 34 semanas, os macacos tratados com esta terapia genética resistiram ao vírus – ao contrário de um grupo de controlo de macacos não vacinados, que ficaram todos infectados.

 

“Este é o culminar de mais de uma década de trabalho sobre a bioquímica da penetração do VIH nas células”, diz ainda Farzan. “Quando desenvolvemos o nosso trabalho inicial acerca do CCR5 [da sua facilitação da infecção pelo VIH], as pessoas pensaram que era interessante, mas ninguém imaginou que tivesse potencial terapêutico. É agora que começam a aperceber-se disso.”

 

Mas ainda deverão ser precisos muitos estudos, dizem os autores, antes de se passar para eventuais ensaios no ser humano: por um lado, para confirmar os resultados em grupos maiores de animais e, por outro, para analisar a segurança e potencial eficácia do composto no ser humano. “Vamos ainda precisar de fazer muitas experiências nos macacos para termos a certeza de que não irá acontecer nada estranho”, diz Farzan.

Nem todos os especialistas parecem convencidos de que esta abordagem irá resultar, segundo uma notícia publicada no site da revista Science. Contudo, num artigo na Nature que acompanha e comenta os novos resultados, Nancy Haigwood, da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (EUA), que não participou no estudo, escreve que “a ideia de conferir uma protecção potente e sustentada contra o VIH, semelhante à de uma vacina, através de uma terapia genética, merece sem dúvida a nossa séria consideração.”

Fonte: publico

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