Desastres Mundiais Saúde

Fukushima: o primeiro cancro “oficial”

Protesters carry placards as they march in Tokyo's shopping district of Shinjuku on May 18, 2013 calling for the evacuation of children still living in the Fukushima prefecture area. Two years since the worst nuclear accident in a generation erupted, the nuclear plant in Fukushima remains fragile and fears and uncertainties still remain for people living in the region.      AFP PHOTO / RIE ISHII

O único caso ‘oficial’ de cancro é só o começo. Investigações indicam que centenas de outros cancros têm sido e serão contraídos pela população local.

O governo japonês declarou pela primeira vez que um trabalhador da central nuclear de Fukushima desenvolveu cancro no processo de descontaminação depois do desastre de 2011.

O homem trabalhou na central danificada por mais de um ano, durante o qual foi exposto a 19.8 msv de radiação, quatro vezes o limite de exposição japonês. Ele está com leucemia.

O ex-gerente de Fukushima, Masao Yoshida, também contraiu cancro no esófago depois do desastre e morreu em 2013 – mas a dona e operadora da central nuclear, Tepco, recusou-se a aceitar a responsabilidade, insistindo que o cancro se desenvolveu muito rápido.

Outros três trabalhadores de Fukushima também contraíram cancro mas ainda não tiveram os casos avaliados.

O desastre nuclear de Fukushima ocorreu depois do tsunami de 11 de Março de 2011. Três de quatro reactores no local derreteram, nuvens de radiação foram libertadas seguidas de uma explosão de hidrogénio, e o combustível nuclear derreteu os recipientes do reactor de aço e afundou-se nas fundações de betão.

A ponta de um icebergue:

Mas o único caso “oficial” de cancro é só o começo. Novas investigações científicas indicam que centenas de outros cancros têm sido e serão contraídos pela população local.

Protesters carry placards as they march in Tokyo's shopping district of Shinjuku on May 18, 2013 calling for the evacuation of children still living in the Fukushima prefecture area. Two years since the worst nuclear accident in a generation erupted, the nuclear plant in Fukushima remains fragile and fears and uncertainties still remain for people living in the region.      AFP PHOTO / RIE ISHII

Um número trinta vezes maior de cancro na tiróide foi detectado entre mais de 400.000 jovens abaixo dos dezoito anos na área de Fukushima.

De acordo com os cientistas, “a proporção da taxa de incidência mais alta, usando um período de latência de quatro anos, foi observada no distrito central da província, comparada com a incidência anual japonesa.”

Numa primeira triagem de cancro na tiróide entre 298.577 jovens, quatro anos depois do desastre, o cancro ocorreu 50 vezes mais entre aqueles nas áreas mais irradiadas, do que na população em geral, numa taxa de 605 por milhão de examinados.

Numa segunda ronda de triagem feita em 106.068 jovens, conduzida em Abril de 2014, em áreas menos irradiadas da província, o cancro era doze vezes mais comum do que na população geral. O cancro na tiróide é comummente desenvolvido como um resultado da exposição ao iodo radioactivo 131, um produto da fussão nuclear. Por que o iodo se concentra na glândula tiróide, causando danos e até mesmo o cancro.

A exposição ao iodo 131 apresenta alto risco imediato no rescaldo de um acidente nuclear devido à sua vida curta de 8 dias, o que faz com que seja extremamente radioactivo. É estimado que tenha composto 9.1% do material radioactivo libertado em Fukushima.

Existem muito mais casos a caminho!

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Os autores do artigo notam que a incidência do cancro na tiróide é alta por comparação com o desastre nuclear de Chernobyl em 1986 – e alertam da possibilidade de muitos casos emergirem:

“Em conclusão, entre as idades de 18 anos e abaixo, em 2011, aproximadamente um número trinta vezes maior em comparações externas e variabilidade em comparações internas de detecção de cancro na tiróide foi observado na província de Fukushima dentro de quatro anos depois do acidente na central nuclear. Era improvável que o resultado fosse explicado pelo efeito da triagem.”

“Em Chernobyl, a quantidade de cancro na tiróide tornou-se mais marcante quatro ou cinco anos depois do acidente na Bielorrússia e Ucrânia, o que nos alerta a preparar-mo-nos para mais casos em potencial dentro de poucos anos.”
Estudos científicos das vítimas de Chernobyl também descobriram que o risco de se desenvolver cancro na tiróide tem uma longa história – por outras palavras, não há diminuição significativa no risco, com o tempo, dentre as pessoas expostas ao iodo 131.

De acordo com o Instituto Nacional do Cancro dos EUA, “os investigadores não encontraram provas, durante o período de tempo estudado, que indicassem que o aumento do risco de cancro para aqueles que viveram na área na época do acidente esteja a diminuir com o tempo.”

“No entanto, uma análise anterior, separada, de sobreviventes de ataque por bomba atómica e indivíduos irradiados descobriu que o risco de cancro começou a diminuir cerca de 30 anos depois da exposição, mas que ainda estava elevado 40 anos depois. Os investigadores acreditam que um acompanhamento contínuo dos participantes no estudo actual será necessário para determinar quando a decaída no risco pode ocorrer.”

A OMS subestimou a libertação de radiação de Fukushima?

People look on as they wait to be scanned for radiation at a temporary scanning center for residents living close to the quake-damaged Fukushima Dai-ichi nuclear power plant Wednesday, March 16, 2011, in Koriyama, Fukushima Prefecture, Japan. (AP Photo/Gregory Bull)

Os autores do estudo sobre Fukushima também sugerem que a quantidade de radiação libertada pode, de facto, ter sido maior do que a OMS e outros estimam: “Para além, poderíamos deduzir a possibilidade de que as doses de exposição para residentes foram maiores do que o relatório oficial ou a estimativa da OMS, porque o número de casos de cancro cresceu mais rápido do que o esperado no relatório da Organização.”

Outra consideração – a qual os autores não abordam – é o efeito das outras espécies radioactivas emitidas no acidente, incluindo 17.5% Césio-137 e 38.5% Césio-134. Esses emissores beta de vida mais longa (30 anos e 2 anos respectivamente) apresentam danos maiores a longo prazo pelo facto de o elemento estar relacionado ao potássio e ser absorvido em biomassa e plantações de alimento.

Ainda assim outro dano radioactivo surge dos emissores alfa de vida longa como o plutónio-239 (meia-vida 24.100 anos) o qual é difícil de detectar. Até manchas em nano-escala de plutónio inalado entrando nos pulmões e no sistema linfático podem causar cancro décadas depois do evento ao continuamente queimar células e tecidos ao redor.

Fonte: CounterPunch

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