Cultura Polémico

Os tentáculos do Facebook

Os dados colhidos de seus utilizadores são o principal activo da rede criada por Mark Zuckerberg. Algo precioso demais para estar nas mãos de um gigante corporativo…

Os números são assustadores. De acordo com relatório divulgado no final de Julho de 2016 pelo Facebook Inc., a rede social tem cerca de 1,49 bilhões de utilizadores, aproximadamente metade dos internautas do planeta. A receita da empresa no segundo trimestre deste ano foi de 13,5 biliões, e o seu fundador, Mark Zuckerberg, desfila ao lado de chefes de Estado como um dos homens mais poderosos do mundo. Mas quais os limites desse gigante que se pretende hegemónico e quais as implicações de sua actuação na vida de cada um?

Como toda companhia de porte global, a empresa tem buscado diversificar seus negócios para manter e ampliar seu poder económico. Não é à toa que Zuckerberg esteve na Cúpula das Américas, realizada em Abril no Panamá, tentando vender seu projecto de internet “gratuita” (assim, com aspas) a diversos países, entre eles o Brasil. O internet.org, na prática, garante acesso prioritariamente ao próprio Facebook, reproduzindo uma táctica já utilizada pela Microsoft ao oferecer softwares de forma gratuita ou a preços mais baixos para governos.

A pretensão do Facebook em relação à implantação do projecto no Brasil causou uma reacção que, em Maio, foi entregue uma carta à presidente Dilma Rousseff em repúdio ao Internet.org. 

“O objectivo real da parceria firmada entre o Facebook e o governo, sob o pretexto de inclusão digital, é de fisgar usuários para a plataforma e para as empresas parceiras que actuam na camada de infraestrutura e na camada de conteúdos e aplicações”

Também recentemente, outra iniciativa que causou polémica foi a criação do Instant Articles, que tem como parceiras nove empresas de comunicação que realizam os testes da plataforma, veículos como o The New York Times, National Geographic e The Guardian. A ideia é que os leitores não saiam mais da rede social para ler o conteúdo destes veículos, que seria publicado directamente no Facebook. Mais uma forma de concentrar a informação, em troca de partilha de receitas publicitárias.

Um dos grandes problemas que muitos notam na actuação da empresa é a estratégia de criar a dependência em relação aos seus serviços para se cobrar mais adiante. “Daqui a pouco, quando acabar a experiência, ou então um tempo depois para não criar tanto atrito, quando novas publicações forem admitidas e se animarem com a possibilidade de angariar mais receita com a publicidade comercializada lá dentro, o Facebook vai fechar a torneira e cobrar uma bela comissão – ou chegar com outra restrição qualquer. Exactamente como tem feito ao longo de sua história”.

Esta ferramenta de controlo que filtra e selecciona tudo aquilo que deve ou não circular de acordo com os interesses da companhia acaba, também, influenciando no tipo de debate que estará em voga e assim, definindo comportamentos. “Temos que cair na real e lembrar que o Facebook é uma empresa que atende a seus interesses, não os dos seus usuários. Se eles perceberem que você é muito antagonista, ou que você não compactua com os interesses deles ou dos patrocinadores, ou outros critérios, eles filtram sua publicação para que você ache que está fazendo activismo, mas na verdade não está. Seu alcance limitado nunca será capaz de gerar uma onda forte ou significativa”, pontua Anahuac de Paula Gil, programador e activista do Software Livre.

“Estas plataformas criam uma esfera pública de debate mediada por algoritmos privados. É como se tentássemos criar uma praça pública dentro de um terreno particular. Estamos sujeitos às regras do dono do terreno. Além disso, esses algoritmos, na medida em que filtram e seleccionam o que nos é exibido, manipulam nossos comportamentos. Fazem isso a partir das análises de nossas interacções, seleccionando e mostrando-nos apenas o que provocará mais interacções, para que permaneçamos mais tempo conectados na sua rede, aumentando ainda mais as receitas para a empresa”, detalha Tiago Pimentel, analista de redes e director da InterAgentes, Brasil.

O dinheiro é deles, os dados são seus

Túlio Costa adverte num artigo que, apesar de seu grande sucesso de sua companhia, Zuckerberg tem um outro gigante poderoso como concorrente e, por enquanto, leva desvantagem. “O Facebook enfrenta problemas como o de continuar conquistando usuários jovens. Também precisa, desesperadamente, fazer crescer sua receita. Facturou US$ 7,8 biliões em 2014 contra US$ 66 biliões do Google. Outro dado assustador para o Facebook é que, desde que suas receitas são conhecidas, ele levou oito anos para facturar US$ 7,8 biliões enquanto que, respectivamente, em oito anos o Google estava facturando US$ 23,7 biliões – três vezes mais.”

O Facebook e o Google têm algo em comum, embora forneçam serviços correlatos, mas distintos um do outro. Ambos extraem informações pessoais dos utilizadores para vender anúncios e produzir marketing de acordo com o modo de utilização de seus serviços. Em outras palavras, é com estes dados que as duas companhias acumulam lucros estratosféricos.

Em Junho deste ano, a socióloga Zeynep Tufekci defendeu, no The New York Times, que ela pudesse pagar ao Facebook para poder utilizar o serviço. Em troca, queria o direito à privacidade. “O presidente do Facebook, Mark Zuckerberg, parece ter muito dinheiro, mas eu gostaria de lhe dar um pouco do meu. Quero pagar uma pequena taxa pelo direito de manter minhas informações privadas e ser capaz de ouvir as pessoas que quero – não os veiculadores de conteúdo patrocinado que procuro evitar. Quero ser uma cliente, não um produto”, disse. De acordo com ela, calcula-se que o lucro da companhia com cada utilizador, por meio de anúncios direccionados, gire em torno de 20 centavos por mês, o que faz o negócio valer a pena somente para quem tem um contingente grande de utilizadores. Em suma, para oligopólios.

O professor da Columbia Law School, Tim Wu, destaca em artigo da New Yorker, remetendo à argumentação de Tufecki, que desde o final do século 18 os negócios das indústrias de entretenimento se baseiam em três pilares: pagamento directo/assinaturas, anúncios ou a mistura de ambos. Mas um quarto modelo surge a partir dos anos 1990: dar ao seu cliente um serviço em troca de suas informações pessoais, que serão utilizadas para se ganhar mais dinheiro.

“O Facebook não é a única companhia que opera desta forma, mas é a campeã, por ter mais dados que qualquer outra. Eles são úteis para a publicidade, principal fonte de receitas do Facebook. Mas também são um activo”, lembra Wu. “A avaliação de que o Facebook tenha um valor estimado em 270 biliões de dólares, tendo obtido um lucro de três biliões no ano passado, é baseada na fé de que todos os dados acumulados têm um valor em si mesmo. É como um Fort Knox virtual, com uma mina de ouro ligada a ele. Uma das razões para que Mark Zuckerberg seja tão rico é que o mercado de acções pressupõe que, em algum momento, ele vai descobrir uma nova maneira de obter lucro a partir de todas as informações que tem sobre nós.”

Dados, elementos radioactivos

Ao se debruçar em uma análise mais aprofundada de como a rede social de Zuckerberg funciona e quais são os reais interesses por trás dessa ‘liberdade’ que é vendida sob o jargão de “É gratuito e sempre será”, não é difícil perceber o quão desastrosas são as consequências de entregar a sua vida a uma empresa privada que, por estar no âmbito digital, passa a impressão de estarmos simplesmente em uma extensão de nossas vidas reais. A realidade não é essa. E o facto é que as informações sobre os utilizadores não servem apenas para dar lucro aos gigantes corporativos.

“São conhecidas as parcerias entre grandes corporações que concentram enormes quantidades de dados (caso de Google e Facebook) e agências de inteligência. Não estamos aqui no terreno da teoria da conspiração. A parceria entre Estados e essas corporações alimentam suas agências de espionagem. O outro lado dessa moeda é que essas corporações montam uma relação de todos os interesses de cada indivíduo, tornando-os mais previsíveis. São esses perfis que são vendidos a anunciantes, e é esse o negócio dessas corporações. Nós somos os produtos, nossos hábitos de consumo e preferências pessoais são os produtos que alimentam esse modelo de negócios”

As consequências dessa concentração de dados em grande escala estão em um âmbito muito mais grave que o simples armazenamento individual das informações. Aglutinadas e catalogadas, passam a ditar hábitos, comportamentos e ideologias. Essa é a tese de Anahuac. “Os dados que você fornece, somados aos dados das outras pessoas, geram um volume de informações tamanho que permite não apenas fazer propaganda bem feita, mas fazer direccionamentos e influenciar comportamentos massivos. Então, dá para definir tendências, dá para definir qual a cor da moda etc. Em última instância, cria tendências de mercado e num outro nível tendências ideológicas, tendências bélicas, tendências religiosas…”, acredita.

“É preciso ter em mente que fazem isso não individualmente, mas em larga escala. Certa vez ouvi do professor Pedro Rezende, um grande criptógrafo brasileiro, uma metáfora interessante: dados pessoais são como elementos radioactivos. Inofensivos se dispersos em estado natural, mas quando concentrados tornam-se urânio enriquecido”, completa Pimentel.

O futuro do Facebook

Diante de tamanho nível de invasão de privacidade, do armazenamento de dados, da venda de informações pessoais e da orientação de tendências e comportamentos exercidos pela rede, fica a pergunta: ao se darem conta dessas estratégias, as pessoas tenderiam, aos poucos, a abandonar o Facebook e migrar para outras redes, como aconteceu no passado com o Orkut?

Anahuac é pessimista. Para o activista, não é que as pessoas, com o tempo, passarão a ter consciência dessas consequências desastrosas do uso da rede social, mas a verdade é que elas já tem esse conhecimento e não estão dispostas a abandonar sua zona de conforto. Didáctico, o programador usa outro paralelo para explicar essa lógica: o da consciência ambiental.

“Praticamente todo mundo tem consciência ambiental. Obviamente, se você perguntar a uma pessoa se ela quer que seu lixo vá para um aterro a céu aberto ou um centro de tratamento, ela dirá que prefere que vá para o centro de tratamento. Ninguém quer o mal da natureza. Porém, essas pessoas em geral jamais exigirão dos seus governantes que os aterros sejam convertidos em centros de tratamento, jamais farão uma manifestação nas ruas em prol do fim dos aterros em céu aberto, por que é um problema que tá aparentemente longe. O mesmo acontece com o Facebook. Muitos activistas acham que o governo tem que regular mas, enquanto isso, continuam ali, usando. É o activista que é contra a sujeira da rua mas joga o lixo no chão por que quem tem que colectar o lixo é o governo”, compara.

Mesmo com tamanho poder, nem tudo são flores para a rede social de Zuckerberg, que enfrenta hoje o desafio de continuar despertando o interesse de novas gerações de usuários. Hoje, ela já sente de perto a força dos aplicativos de mensagens, que podem começar a mudar a forma com que as pessoas percebem as próprias redes sociais. De acordo com matéria do jornal Valor Económico, seis dos dez aplicativos mais usados do mundo são serviços de mensagens e os usuários do Facebook recorrem ao WhatsApp e Messenger entre 25 a 30 vezes por dia, enquanto escrevem 15 vezes no “feed” principal do site, conforme estimativa do Deutsche Bank.

A expectativa é que o WhatsApp, adquirido pela empresa de Zuckerberg no ano passado, alcance 1 bilião de utilizadores no início de 2016, sete anos após seu lançamento e dois anos menos do que o Facebook levou para chegar no mesmo contingente de usuários. No entanto, isso traz um dilema em relação ao modelo de negócios da companhia, que lucra por meio de anúncios próximos aos posts dos amigos dos utilizadores vistos em suas páginas.

Os tentáculos do Facebook são cada vez mais e mais poderosos!

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